Supostamente nada deveria acontecer. E nada aconteceu.
Olhou o relógio umas cinco vezes. Olhava automaticamente, quase esquecendo de ver o horário. Isso não era importante.
À sua volta só a neblina fria da noite, mas nem isso lhe incomodava. Os trilhos do trem escondiam ninhos e talvez até mesmo reinos inteiros de diferentes espécies de "pragas urbanas". Eram mais felizes que aquelas pessoas todas que iam e vinham de estação em estação, desesperadas pra chegar a algum lugar? Talvez o fossem.
"Viver do lixo humano". Riu, pois essa era uma afirmação ridícula e irônica. "Humanos que viviam de lixo humano", isso fazia mais sentido. Eram tão "pragas" quanto aquelas que viviam nos trilhos do trem. E talvez por ter consciência disso soava muito mais triste e desolador.
O vento parecia soprar cada vez mais forte a medida que a noite caía. E seus pensamentos, cada vez mais tolos, desvaneciam-se em uma imaginação fértil e abstrata.
Aí estão os ratos a percorrer os trilhos do trem. Estarão em busca de comida? Ou abrigo? Ou estão se divertindo?
Cá estão eles. Será que sentem frio? Será que sentem medo?
Uma corrente forte de ar o fez voltar à realidade. Olhou ao longo dos trilhos, era o trem que chegava. Olhou para os ratos que até então corriam com liberdade por entre o ferro e as pedras. O trem parou à sua frente.
Será que foram esmagados? Será que se refugiaram em algum lugar? Huh...! De que me importa? São apenas ratos.
Pela janela do trem observou os prédios que cortavam o céu da cidade, os milhares de automóveis que saturavam as ruas e avenidas, as pessoas que corriam desesperadas para algum lugar, mendigos caminhando trôpegos, solitários e invisíveis ao mundo, e sorriu.
Definitivamente, somos ratos que vivem em enormes trilhos pessoais. O quão tolo isso soa? Huh! De que me importa? Somos apenas humanos.
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